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Panenka, o pai da ‘cavadinha’

O craque checo tirou o fôlego de todo um continente em 1976 ao correr para a bola, na marca do pênalti, e fazê-la subir para descer em parábola

Então, como a bola veio alta demais e ele estava de costas para as traves, Leônidas deu um jeito de tocar na pelota como quem pedalasse uma bicicleta de cabeça para baixo. Compridão, um tanto desleixado e de pés proporcionalmente pequenos demais em relação ao corpo, Sócrates inventou de bater de calcanhar para não cair no gramado. A bicicleta, o calcanhar eis aí duas belezas do futebol, de autorias sempre disputadas, mas pouco importa quem as iniciou. A graça é ter uma jogada especial para chamar de sua. O checo Antonín Panenka tem e não por acaso, dada a grandeza do que criou, batiza uma das mais criativas e irreverentes revistas de futebol do mundo, a espanhola Panenka, irmã mais novinha de PLACAR. Para começo de conversa, o atacante jogava pelo Bohemians Praha 1905, romântico nome de um clube tradicionalíssimo da terra de Franz Kafka, o que faz sua infindável trajetória ainda mais charmosa.

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E então, em 20 de junho de 1976, no Estádio Estrela Vermelha de Belgrado, na extinta Iugoslávia de Tito, Checoslováquia e Alemanha Ocidental disputavam a final da Euro. Deu empate no tempo regulamentar, 2 a 2, e a decisão foi para as penalidades máximas. Com o placar favorável aos então comunistas em 4 a 3, era a vez do alemão Uli Hoeness bater. Bateu e perdeu. Panenka e seu bigode, o bigode e Panenka, caminharam para a marca dos 11 metros. Se fizesse, adeus, era o título. Calma e tranquilamente, tendo à frente o espetacular goleiro Sepp Maier, o meia trotou, trotou e, de pé direito, fez a bola subir. O que veio depois foi lindamente explicado no bacana blog português Planeta Futebol, sempre atento ao que vai além das linhas:

“Quando partiu para a bola, Panenka tinha toda a Europa suspensa a olhar para ele. Mesmo assim, o seu bigode escovinha nunca tremeu. Deu sete passos em corrida, chegou junto da bola e, na hora de levantar a chuteira para o remate, reparou que, como quase sempre, Maier já começara a tombar lentamente, antes de a bola partir, para o lado esquerdo, esperando, talvez, um potente disparo como o anterior. Frações de segundo suficientes para, em vez de chutar forte, Panenka meter o bico da bota por baixo da bola e dar-lhe apenas um leve toque que a fez levantar num pequeno chapéu que começou a descer, em folha-seca, mesmo ao passar pela linha do gol, perante o desespero de Maier, uma montanha em forma de guarda-redes que se deixara cair como um castelo de cartas para o lado. Apesar de ser um polvo gigante e estar a centímetros da bola que lhe passava tão devagar a seu lado, era impossível, pela sua posição, conseguir tocá-la. Limitou-se a assistir, desesperado, a como ela, tão mansamente, se aninhava no fundo das redes. Gol! Enquanto o gigante alemão jazia deitado na relva com as mãos na cabeça, Panenka corria extasiado até ser derrubado e submerso em abraços pelos seus colegas. Era a invenção do mórbido estilo Panenka de marcar pênaltis, algo que, soube-se depois, ele próprio já ensaiara meses antes, pelo Bohemians, em jogos do campeonato checo.”

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E então, Panenka virou um modo de bater pênalti. Em bom português: inaugurava-se, ali, a cavadinha. A cavadinha que Loco Abreu, na Copa de 2010, na África do Sul, usou na vitória contra Gana, naquela semifinal de sangue, suor e lágrimas. Antonin Panenka está vivo, tem 72 anos. No ano passado, contraiu Covid-19. Chegou a ser internado, esteve em estado grave, mas sobreviveu. E sempre sobreviverá, porque sua vida já não é apenas de carne e osso, virou lenda, virou sinônimo de inventividade. Ele cavou, enfim, um lugar na história do futebol, depois daquele lance inesquecível.

Matéria publicada na seção ‘Um Lance Inesquecível’ da edição impressa 1477 de PLACAR, de julho de 2021 

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