Capa do livro ‘Tomazinho e Paulo Gonçalves: Meio século de glórias no futebol”, lançado em 2025 pela Editora Contato Comunicação – Divulgação
Da saudade do pai e do orgulho familiar nasceu um livro sobre a trajetória de irmãos que deixaram um enorme legado no futebol brasileiro. “Tomazinho e Paulo Gonçalves: Meio século de glórias no futebol”, lançado em 2025 pela Editora Contato Comunicação, foi escrito por Guillermo Gonçalves, filho de Tomazinho, lenda do Atlético Mineiro, que morreu aos 91 anos, em 2024, e sobrinho de Gonçalves, um dos maiores treinadores da história do Goiás.
“A ideia de escrever o livro foi na verdade uma sugestão do repórter Jânio José da Silva, do jornal O Popular, depois de uma entrevista em que contei histórias sobre o meu pai. Ele disse: isso aí dá um livro, e a partir daí assumi a empreitada”, conta Guillermo Gonçalves à PLACAR.
Guillermo Gonçalves (à esq.), ao lado do tio Paulo Gonçalves – Diomício Gomes / O Popular.
“Fiz entrevistas em vida com meu tio, Paulo Gonçalves, e a parte do meu pai tem como base a convivência e as conversas que tivemos ao longo de toda a vida, além claro de muita pesquisa e outros papos com colegas de sua época”, completa o autor do livro.
Mineiro: América e Atlético empatam em duelo de traves e polêmicas
Paulo Gonçalves no Goiânia e Tomazinho no Atlético Mineiro – Acervo Pessoal
Tomazinho é um dos maiores ídolos da história do Clube Atlético Mineiro, com uma extraordinária média de 0,86 gol por partida. Foi três vezes campeão mineiro com o Atlético, em 1954/55/56, sendo que em 1955 e 1956 foi o artilheiro do campeonato mineiro, com 15 gols em cada um dos certames.
Comparado a Pelé e Garrincha (ler mais abaixo no capítulo cedido pelo autor), Tomazinho também atuou pelo Palmeiras ao lado de Valdir de Moraes, Valdemar Carabina, Ênio Andrade e Julinho Botelho, e pelo Cruzeiro, clube em que se sagrou campeão mineiro em 1960. Como treinador, comandou o Goiânia Esporte Clube no último título estadual do clube, em 1974.
Paulo Gonçalves e, 1996, ano em que o Goiás foi 4º lugar no Brasileirão – Acervo Pessoal
Paulo Gonçalves, meia-armador campeão mineiro pelo Atlético Mineiro em 1958, é um dos maiores treinadores da história do futebol goiano. Para vários analistas é o maior treinador da história do Goiás Esporte Clube, tendo levado o alviverde goiano ao 5º lugar no campeonato nacional de 1983 e ao 4º lugar no campeonato brasileiro de 1996.
Foi o treinador da seleção goiana que venceu a seleção de Portugal por 2X1, na inauguração do Estádio Serra Dourada, em 1975. Como treinador da seleção brasileira de futebol feminino, conquistou a medalha de ouro no Pan-Americano da República Dominicana, em 2003.
Quanto custa e onde comprar
Livro: “Tomazinho e Paulo Gonçalves: Meio século de glórias no futebol”
Editora: Contato Comunicação
Quanto custa: R$ 60
Onde comprar: Clique no link
Leitor de PLACAR desde a década de 1970, o autor Guillermo Gonçalves cedeu, gentilmente, um dos capítulos do livro ao blog Prorrogação:
Disputas com Pelé e Garrincha
Um acontecimento extraordinário merece ser citado nesta obra: a vitória do Clube Atlético Mineiro sobre o Santos Futebol Clube de Pelé, por 3 x 1, no Estádio Independência (bairro do Horto), em Belo Horizonte, na segunda metade da década de 1950. O jogo em questão mereceu um capítulo à parte no livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond, a respeito da meretriz que encantava os homens e assombrava as mulheres “de família” na Belo Horizonte dos anos 1950 e 1960.
Naquela época a tradicional família mineira, representada por Dona Loló Ventura, considerada uma referência em termos de religiosidade, moral, princípios e bons costumes, organizou um movimento para afastar as prostitutas da região central de Belo Horizonte e colocá-las em um bairro afastado denominado “Cidade das Camélias”. A ideia foi encampada pelo líder da bancada do Partido Democrata Cristão (PDC) na Câmara Municipal, Padre Cyr Assumpção, que apresentou projeto de lei nesse sentido. Padre Cyr Assumpção, Dona Loló.
Ventura e seus apoiadores verificaram que o projeto de lei se tornou polêmico e que os vereadores de Belo Horizonte estavam divididos sobre a aprovação ou não da Cidade das Camélias. Os defensores da proposta temiam que Belo Horizonte se tornasse uma versão moderna de “Sodoma e Gomorra”. Enfrentaram ferrenha oposição de vereadores da esquerda, mas contavam com o apoio do Clube da Lanterna, grupo político vinculado à UDN de Carlos Lacerda. Diante do impasse, Padre Cyr e Dona Loló convocaram uma passeata em favor da moral e dos bons costumes da nobre família mineira. Surgiu então um problema: a manifestação / concentração foi convocada para o mesmo dia e horário do jogo entre Atlético Mineiro e Santos, no Estádio Independência.
Ocorreu então o seguinte, que descrevo literalmente nas palavras de Drummond em Hilda Furacão, obra de 1991, nas páginas 104 e 105: “Cinco dias antes da concentração, quando toda a cidade estava inundada de propaganda e anúncios pagos nos jornais e nas rádios, Dona Loló Ventura, o Padre Cyr e Dona Maryjane, das mal amadas, procuraram o jovem bispo auxiliar de Belo Horizonte, Dom Serafim Fernandes de Araújo, para ser o orador da noite. Ele sorriu muito simpaticamente e
respondeu:
Tomazinho na capa da Gazeta Esportiva
— Dona Loló, a senhora, Padre Cyr e Dona Maryjane não tinham outro dia para fazer a manifestação? Pois na quarta-feira, dia 15, às 9 da noite, o Santos, com Pelé vestindo a camisa 10, estará enfrentando o Atlético no Estádio Independência… e vão me perdoar… mas jogo do Atlético não perco por nada deste mundo. Toda a cidade começou a falar no jogo Atlético e Santos; travou-se uma guerra de carros com alto-falantes e aviões com faixas, uns convidavam para ver o Atlético contra o Santos do Rei Pelé, outros chamavam para uma Ave Maria para evitar que Belo Horizonte se tornasse Sodoma e Gomorra. Ao que parece, era maior a paixão pelo Atlético – cuja torcida torce contra o vento se há uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade -, pois o Gigante do Horto foi pequeno para tanta gente e um estádio inteiro ficou do lado de fora, enquanto só uns gatos pingados compareceram à manifestação a favor da Cidade das Camélia, para desconsolo de Dona Loló Ventura e de Dona Maryjane, das mal amadas, pois nem o padre Cyr (esse foi visto no Gigante do Horto) nem os vereadores foram à Câmara Municipal naquela noite.
Quanto ao jogo, Pelé fez um belo gol de cabeça, mas o herói da noite foi Tomazinho, autor dos três gols com os quais o Atlético derrotou o Santos por 3 X 1. Os jornais do dia seguinte, como se tivessem combinado, publicaram a mesma manchete nas páginas de esporte: ‘Quem foi ver o Rei Pelé, viu o Príncipe Tomazinho’ Dizem que até Hilda Furacão estava no estádio, para frustração dos que, mesmo com o grande jogo daquela noite, entraram na fila no Maravilhoso Hotel para descobrir por que ela era a tentação dos homens”.
Tomazinho, aliás, se especializou em assinalar gols contra o Santos de Pelé. Até a virada do século XX para o XXI Tomazinho era o maior artilheiro do Atlético Mineiro em jogos contra o Santos, com 6 gols marcados. Posteriormente, já nos anos 2000, foi ultrapassado por Diego Tardelli, que assinalou 7 gols atleticanos contra o alvinegro santista. Houve um jogo entre o Atlético Mineiro de Tomazinho e o Santos de Pelé que teve como resultado final 5X2 para o time atleticano. Nesta partida Tomazinho assinalou três dos cinco gols do Clube Atlético Mineiro.
Ainda hoje, na terceira década do século XXI, Tomazinho segue como um dos maiores artilheiros do Atlético Mineiro em jogos contra o arquirrival Cruzeiro Esporte Clube. Houve outra história fantástica ocorrida também na segunda metade da década de 1950, quando o Atlético Mineiro e o Botafogo, do Rio de Janeiro, se enfrentaram em Belo Horizonte, no Estádio Independência, o Gigante do Horto. O Botafogo venceu o Atlético Mineiro por 5 X 4. É Tomazinho quem conta a história:
— O Atlético Mineiro tinha um time muito bom e o mesmo acontecia com o Botafogo. O time carioca contava com Nílton Santos, Didi, Garrincha, Quarentinha e Zagalo. Era uma equipe fortíssima! Fizemos 4 X 0 e então o Botafogo empatou o jogo. Com o placar em 4 X 4, já perto do final da partida, eu recebi um passe em profundidade, deixei os zagueiros para trás, driblei o goleiro e toquei a bola para o gol. No entanto, e não sei de onde, surgiu Nílton Santos, que parou a bola bem em cima da linha do gol e saiu jogando. A partir do Nílton Santos fizeram uma bela troca de passes e marcaram o quinto gol do Botafogo. No final o placar foi Botafogo 5 x 4 Atlético Mineiro.
Há um outro registro histórico sobre confrontos entre o Clube Atlético Mineiro e o Botafogo de Futebol e Regatas, clube sediado na década de 1950 no estado da Guanabara: foi em um empate entre as duas equipes (2 x 2), no dia 19 de Março de 1954, que Tomazinho marcou o primeiro de seus 118 gols com a camisa atleticana. Uma curiosidade adicional: também em 1954, no dia 11 de Maio, Tomazinho assinalou, na goleada de 7 x 0 sobre o C. A. Pompeano, o gol de número 3500 da gloriosa história do Clube Atlético Mineiro. Citaremos a partir deste ponto os acontecimentos que culminaram na ida de Paulo Gonçalves para o Clube Atlético Mineiro, no qual atuou ao lado de seu irmão mais velho.
Em 1957 o Fluminense, clube do Rio de Janeiro (à época estado da Guanabara), se interessou de forma efetiva por Paulo Gonçalves, que então atuava como meia armador do Goiânia Esporte Clube. Paulinho era, segundo suas próprias palavras, o que se chamava na época de segundo homem do meio campo. Era um camisa 8 típico, atuando à frente do volante (geralmente com o número 5 na camisa) e atrás do ponta de lança (que usualmente vestia a camisa número 10). Paulinho era um meia técnico, capaz de encaixar bons passes para os companheiros que infiltravam em direção à área adversária. O sistema tático predominante na época era o 4-3-3, que contava com o goleiro, laterais direito e esquerdo, dois zagueiros de área, três meio campistas – já especificados neste parágrafo -, pontas direita e esquerda e um centroavante.
Um dirigente do Fluminense, Haroldo Drole da Costa, veio para Goiânia em 1957 com o objetivo de levar Paulinho para o tricolor carioca. Drole da Costa foi bem sucedido em sua investida inicial e levou Paulo Gonçalves para a cidade do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que Paulinho viajou de avião. Na capital do então estado da Guanabara Paulinho ficou uma semana treinando nas Laranjeiras, estádio do Fluminense, e hospedado na casa de Haroldo Drole da Costa, que inclusive era localizada perto do clube tricolor. Paulo Gonçalves se destacou nos treinos em terras cariocas e voltou para Goiânia, com o intuito de providenciar bagagens e documentos para residir em definitivo no Rio de Janeiro. O Fluminense havia proposto para Paulinho um contrato com as mesmas bases do acordo com Altair, zagueiro do tricolor carioca e da seleção brasileira de futebol.
Pesquisa / enquete da Revista do Esporte em 8 de Agosto de 1959.
Ocorreu então o fato que modificou os rumos da carreira da meia Paulo Gonçalves: o Atlético Mineiro, onde já estava também seu irmão Tomazinho, manifestou interesse em Paulinho. Dona Itália decidiu o assunto: Paulinho teria que ir para Belo Horizonte para jogar e morar com o irmão Tomazinho. Paulo Gonçalves descreve assim como foi sua ida para a terra das alterosas:
— Eu queria ir para o Fluminense, mas minha mãe decidiu que eu deveria ir para Belo Horizonte para jogar ao lado do Thomaz e morar com ele. Era uma época em que a gente obedecia à mãe sem discutir ou questionar. Dessa forma eu fui para Belo Horizonte, mas antes de assinar meu contrato com o Atlético Mineiro fui procurado por um emissário do Fluminense, que tentou me demover da ideia de ir para o Atlético Mineiro e me convencer a ir para o Rio de Janeiro. Obedeci minha mãe e assinei com o Atlético Mineiro.
Logo que chegou a Belo Horizonte Paulinho se destacou nos treinamentos do Clube Atlético Mineiro, tanto que conquistou rapidamente a camisa 8 do time. Paulo Gonçalves atuou no Atlético Mineiro entre 1957 e 1959, tendo se sagrado campeão mineiro pelo clube em 1958. Sua carreira ia de vento em popa, quando Paulinho sofreu um acidente automobilístico que lhe custou 60% da visão do olho esquerdo. Depois disso Paulo Gonçalves disse que seu nível técnico caiu, tanto que ele pediu para se transferir para um clube mineiro menor, o Renascença. Após um breve período no Renascença Paulinho optou por um precoce encerramento de sua carreira de atleta profissional. Mal sabia ele que sua carreira como treinador de futebol superaria as glórias da época de atleta…
Enquanto Paulinho deixava o futebol, seu irmão se destacava cada vez mais nos gramados. Em Março de 1958, a revista A Gazeta Esportiva, de São Paulo (SP), publicou uma edição com Tomazinho na capa, citando-o como “símbolo da bravura atleticana e ídolo da torcida do Atlético Mineiro. A carreira de craque e artilheiro de Tomazinho foi muito vitoriosa, tanto que a Revista do Esporte, do Rio de Janeiro, a maior publicação nacional em matéria de futebol da época, em seu número 22, de 8 de Agosto de 1959, o colocou na pesquisa intitulada “Qual o maior craque do momento no futebol?”, ao lado de Pelé, Garrincha, Dida, Belini, Canhoteiro, Castilho e outros nomes fantásticos do futebol brasileiro. Era o auge do craque e artilheiro Tomazinho.
Tomazinho e Mazzola no Palmeiras em 1958 – Acervo Pessoal