Sempre que uma nova camisa oficial chega às lojas por valores próximos de R$ 450,00, a reação do torcedor é imediata e compreensível. A sensação é de abuso, de distanciamento entre clube e arquibancada e de um produto que deixou de ser popular. Mas, ao olhar com mais atenção para a cadeia produtiva, fica claro que o preço final da camisa não nasce apenas de uma estratégia agressiva das fornecedoras. Ele é, em grande parte, consequência direta de produzir e comercializar no Brasil.

O primeiro gargalo está na própria indústria têxtil esportiva nacional. A produção local enfrenta custos elevados de matéria-prima, energia, mão de obra especializada e logística. Tecidos tecnológicos, processos de sublimação, termocolagem e acabamentos de alto padrão ainda têm baixa escala competitiva no país. Por isso, mesmo quando parte da confecção ocorre aqui, insumos essenciais seguem sendo importados.

A importação carrega um peso que raramente aparece na discussão pública. Impostos, taxas alfandegárias, variação cambial, transporte internacional e burocracia encarecem cada etapa. Não é exagero afirmar que uma camisa pode chegar ao Brasil custando duas ou três vezes mais do que seu valor na origem, antes mesmo de entrar na prateleira.

A carga tributária interna completa o cenário. ICMS, PIS, Cofins e outros tributos se acumulam ao longo do processo, pressionando o preço final e reduzindo a margem das empresas. Em muitos casos, a rentabilidade líquida das fornecedoras é bem menor do que o torcedor imagina, especialmente quando se considera o risco operacional e o custo de manter estoques elevados.

Há ainda o fator escala. Diferentemente de mercados europeus, onde a previsibilidade de consumo permite grandes volumes de produção, o Brasil convive com demanda instável, pirataria elevada e ciclos econômicos curtos. Produzir menos significa diluir custos fixos em menos unidades, o que naturalmente empurra o preço para cima.

Nesse contexto, entra um ponto raramente tratado com clareza: os valores pagos aos clubes. Grandes clubes cobram luvas elevadas para assinar contratos com fornecedoras, além de royalties relevantes por peça vendida. Esses valores são fundamentais para o caixa das instituições, mas também fazem parte da conta que chega ao consumidor final. Quanto maior o clube e sua exposição, maior costuma ser a exigência financeira, o que reduz ainda mais a margem de manobra das marcas para praticar preços mais acessíveis.

Nada disso elimina a frustração do torcedor. A camisa segue cara demais para a realidade brasileira. O ponto central, porém, é entender que o problema não está restrito à vontade de clubes ou fornecedoras. Ele está inserido em um ambiente produtivo caro, altamente tributado e pouco eficiente, no qual cada elo da cadeia repassa custos para o seguinte.

No fim, a camisa pesa no bolso porque o sistema pesa sobre todos. Enquanto o debate se limitar a apontar vilões isolados, a solução seguirá distante daquele que sustenta o espetáculo: o torcedor.