Meia espanhola ganhou a tríplice coroa no Barcelona, a Bola de Ouro e The Best e dedicou os prêmios ao pai, que faleceu antes de ela estrear pelo Barça
“Gostaria de dedicar este troféu a uma pessoa que foi e sempre será muito especial pra mim, pela qual faço tudo. Espero que esteja muito orgulhoso de sua filha, onde quer que esteja. É para você, pai.” Foi assim, com nó na garganta, que Alexia Putellas abriu seu discurso no Théâtre du Châtelet, ao receber a Bola de Ouro, da revista France Football, no fim de 2021. Em janeiro, ela ganhou também o prêmio The Best, da Fifa. Não tem para ninguém: é a melhor jogadora de futebol do mundo. Uma honraria que o pai, Jaume Putellas, de quem herdou a paixão pelo esporte e pelo Barcelona, adoraria ter presenciado. Sua morte, em maio de 2012, deixou cicatrizes — mas também foi o combustível para brilhar no gramado.
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Putellas (pronuncia-se Puteias) nasceu e cresceu em Mollet del Vallès, na Catalunha, e começou a jogar aos 6 anos, ainda na escola, pouco depois da primeira ida ao Camp Nou, no clássico da região diante do Espanyol. Ela chegou a entrar no clube de sua cidade, mas como era um time masculino, não se sentia à vontade. Passou, então, às categorias de base do Sabadell, na periferia de Barcelona. Foi naquele momento que Jaume, ao perceber o imenso talento da filha, a levou para o Levante, de Valência, a 350 quilômetros de distância.
A mãe, Elisabet, e a irmã, Alba, eram presença constante nos treinos, jogos e competições, mas o pai se entregava 100%. Jaume cresceu numa família de motociclistas, era fã de basquete e tinha um carinho especial pelo Barça, seu time do coração. Ele morreu (de causas não reveladas) em maio de 2012, dois meses antes de o passe da filha ser negociado com o time blaugrana, aos 18 anos. Canhota como os ídolos Rivaldo e Messi, Alexia começou no clube catalão ainda nas categorias de base, mas logo foi promovida ao time principal, do qual é a atual capitã. Em 2013, marcou um golaço diante do Zaragoza que lhe rendeu uma inusitada relação musical com o Brasil. Impressiona- da com a jogada, a banda mineira Skank, compôs a canção Alexia.
“Pela rambla o estandarte das cores / Catalunya, Barceloneta, Blaugrana / A mirar-lhe o olhar de mil homens / Bailarina dança na roda sardana / Chove chuva, molha o chão / Nuvem, samba do avião / Ela vai jogar / Hendrix, Elvis, Messi e hoje brilha nova estrela dessa galáxia / Flashes, lights, likes, closes / Compartilha agora a beleza de Alexia”, dizem os versos de Samuel Rosa. Alexia agradeceu a homenagem, mas disse que prefere ter exaltadas suas qualidades como atleta.
Em 2021, ela brilhou na conquista da tríplice coroa: Copa da Rainha, Campeonato Espanhol e Liga dos Campeões, a primeira do Barça entre as mulheres. Além disso, a camisa 11 joga também na seleção espanhola, onde soma 93 aparições e 23 gols. Sua principal característica é a visão de jogo para servir as companheiras.
Seus feitos já entraram para a história do esporte espanhol. Foi a primeira Bola de Ouro para um atleta do país desde Luis Suárez Miramontes, também ídolo do Barça, em 1960. Não à toa, Putellas, que tem contratos publicitários com gigantes como Visa, Allianz e Nike, é figura constante em capas de revistas na Europa. Fora dos campos, ela tem sido uma voz rui- dosa na luta pelo fim do preconceito contra o futebol feminino.
“Acreditem nelas. Todos temos a responsabilidade de fazer o possível para que as meninas tenham a oportunidade de ser jogadoras de futebol, não importa de onde venham, onde nasceram, a cor de sua pele”, disse em seu discurso ao receber a Bola de Ouro. Ela não só ajuda projetos sociais como criou o Alexia Putellas International Camp, apoiada pelo departamento feminino do Barcelona. “Nossa geração tem de dar um passo à frente para que o futebol feminino se desenvolva mais rápido”, afirma. Don Jaume estaria orgulhoso dela dentro e fora de campo. Alexia tem ainda muita estrada pela frente.
(Matéria publicada na edição impressa de PLACAR de fevereiro de 2022)
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