A presença cada vez maior de ídolos estrangeiros ou com raízes coloniais aquece a boa briga contra o racismo, a xenofobia e o nacionalismo populista
Teve início na última semana a Eurocopa mais multicultural de todos os tempos. A pluralidade não se dá apenas pelo fato de a edição comemorativa de sessenta anos da competição ser jogada em onze países (Alemanha, Azerbaijão, Dinamarca, Escócia, Espanha, Holanda, Hungria, Inglaterra, Itália, Romênia e Rússia), mas pelas raízes de vários de seus protagonistas. O fenômeno precede a globalização, já que desde a primeira Copa do Mundo, há 91 anos, havia atletas naturalizados. Agora, porém, ganhou escala sem precedentes. Cerca de 15% dos inscritos da Euro 2020 (adiada em um ano por causa da pandemia) são estrangeiros ou filhos de imigrantes.
A equipe mais miscigenada é justamente a principal favorita, a atual campeã mundial França, com dezesseis atletas descendentes de antigas colônias como Congo, Mali, Argélia, Tunísia e Guadalupe. Trata-se, também, da Euro mais politizada, um reflexo da fervura desse caldeirão étnico. Temas como racismo, xenofobia e os efeitos de velhas guerras nunca foram tão debatidos em campo.
“Acho que o racismo no futebol está em seu ponto mais alto, por causa das redes sociais”, desabafou o atacante belga Romelu Lukaku, filho de congoleses, à TV inglesa. Atletas de renome como ele e o alemão Antonio Rüdiger, zagueiro do Chelsea com raízes em Serra Leoa, têm combatido o preconceito com firmeza. O caminho é longo, como se viu na estreia da própria Bélgica, em São Petersburgo. Lukaku, seus colegas e o árbitro do jogo se ajoelharam no gramado em um gesto que se transformou em símbolo de movimentos antirracistas. Os atletas russos, porém, ficaram de pé e alguns dos torcedores vaiaram.
Jogadores de Hungria e Croácia, outros países com forte viés nacionalista, também se negaram a ajoelhar. “Olhando do nosso ponto de vista cultural, esse gesto é uma provocação”, cravou Viktor Orbán, premiê húngaro de extrema direita, que liberou 100% da capacidade de público nos jogos em Budapeste e, fã de futebol, vem utilizando o esporte como propaganda eleitoral visando a um quinto mandato em 2022. Polêmicas como um detalhe no uniforme da Ucrânia (um mapa que inclui a Crimeia, região anexada pela Rússia) e um gesto supostamente supremacista de Marko Arnautovic, austríaco de ascendência sérvia, na partida contra a Macedônia do Norte, marcaram a rodada inaugural.
A atual edição registra também um recorde de brasileiros naturalizados, sete no total. A Itália conta com Rafael Tolói, Emerson Palmieri e Jorginho. Outro caso notável é o do meia paranaense Marlos, da Ucrânia. Vivendo há nove anos no país, ele se esforçou para aprender russo e aceitou o convite de Andriy Shevchenko, ídolo local e atual técnico da seleção. É uma tendência que vem crescendo. O Brasil já teve dois campeões da Euro: o volante paulista Marcos Senna, pela Espanha, em 2008, e o zagueiro alagoano Pepe, por Portugal, em 2016.
As escalações, portanto, refletem décadas de mudanças demográficas. O histórico no esporte já sinaliza um risco real: o de vencedores serem exaltados como heróis de um mundo sem fronteiras, enquanto derrotados serão vítimas de ainda mais preconceito. Foi assim com a França da geração de Zinedine Zidane e tantos outros. Nas conquistas, o bleu, blanc, rouge (azul, branco, vermelho) da bandeira deu lugar ao bleu, blanc, beur (azul, branco, árabe), uma ode à pluralidade. Nos fracassos, a xenofobia deu o tom. “Quando faço gols, sou francês. Quando não faço, sou árabe”, definiu anos atrás Karim Benzema, muçulmano de origem argelina, que se nega a cantar os versos sobre “sangue impuro” da Marselhesa, o hino francês. De volta à seleção, ele é uma das atrações do torneio mais miscigenado da história.
Publicado em VEJA de 23 de junho de 2021, edição nº 2743
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