Trazer o árbitro de vídeo para os campeonatos estaduais foi um grande acerto. Mas falta algum ajuste para eliminar a chiadeira dentro e fora de campo
Não se pode dizer que o futebol brasileiro tenha sido pego de surpresa. Afinal, a Copa do Mundo de 2018 já havia apresentado aos torcedores uma novíssima e agora incontornável figura dos gramados e suas cercanias: o árbitro de vídeo, conhecido pela sigla VAR, que nasceu para diminuir as marcações incorretas da arbitragem — e apenas diminuir, já que é praticamente impossível erradicá-las por completo. E, no entanto, o socorro eletrônico ainda parece um corpo estranho, sobretudo por impactar diretamente a cadência e a dinâmica do jogo. Não há, ressalve-se, remédio contra a sensação frustrante de comemorar um gol e, alguns minutos depois, ter de engolir a vibração.
Antes que os detratores do árbitro de vídeo saiam com cartazes em punho pedindo a abolição da novidade, é preciso iluminar uma constatação relevante: não houve sequer um único erro crasso de avaliação do comitê de juízes encastelados nas 44 partidas que tiveram a participação do VAR nos campeonatos estaduais de 2019. Mas, passado o primeiro grande teste pelas bandas de cá, estamos longe de dizer que sua adoção tenha sido perfeita. Com o cronômetro na mão, VEJA debruçou-se sobre nove lances dissecados pelo VAR em quatro competições distintas, os campeonatos Paulista e Carioca, a Copa de 2018 e a Liga dos Campeões de 2019. Para não cometer o equívoco de pôr num único balaio lances objetivos e outros interpretativos, foram selecionadas apenas jogadas do mesmo tipo: a possibilidade de impedimento em lances de gol. E o resultado foi categórico: nos jogos dos campeonatos estaduais, as equipes das salas do VAR à brasileira demoraram muito mais tempo para chegar a um veredicto em comparação com as das principais competições internacionais (veja o quadro abaixo).
Na semifinal do Campeonato Paulista entre São Paulo e Palmeiras, foram necessários longuíssimos três minutos e doze segundos para a anulação correta do gol do palmeirense Deyverson, ante brevíssimos 45 segundos do VAR que atuou no gol do Barcelona contra o Manchester United pela Liga dos Campeões da Europa. “É preciso paciência”, diz o ex-árbitro Péricles Bassols, comentarista do canal Esporte Interativo. “Na Europa, são mais de 800 jogos de experiência. Aqui são apenas cinquenta partidas com o VAR.”
A melhora do juízo eletrônico no Brasil pode ser, sim, uma questão de tempo. Mas há alguns passos fundamentais para evitar que o VAR vire várzea. Existe, por exemplo, uma defasagem da estrutura tecnológica adotada por aqui em relação à empregada nos grandes campeonatos do mundo. Embora a empresa contratada pelas federações seja a mesma da Copa da Rússia e da Champions, a inglesa Hawk-Eye, o “pacote” escolhido é mais modesto: além do número menor de câmeras, o VAR dos estaduais teve um profissional a menos em relação às demais competições internacionais para avaliar os replays. Resultado: lentidão na aferição dos impedimentos. A decisão foi financeira. No Campeonato Paulista, a adoção do VAR custou aos cofres da federação 28 000 reais por jogo. Já no Campeonato Brasileiro, com turmas equivalentes, o VAR custará 50 000 reais por partida. A CBF arcará com a maior parte dos custos (13 milhões), e os gastos com pessoal (6 milhões) serão pagos pelos clubes.
Não bastasse essa questão técnico-financeira, houve algum “bater de cabeça” nos estaduais, com desperdício de mão de obra nas salas do VAR: designou-se um bandeirinha para acompanhar o jogo ao vivo, diante dos monitores, enquanto um árbitro checava os lances na repetição. Havia, contudo, nos cubículos, um terceiro juiz quase sem função, um tanto perdido — e dá-lhe tempo passando. “Corrigimos isso para o Brasileiro”, diz o chefe de arbitragem da CBF, Leonardo Gaciba. Especialistas consultados por VEJA também relataram a diferença arquitetônica entre alguns dos estádios brasileiros e os de fora, o que dificultaria o posicionamento das câmeras. Eles apontaram ainda a inexistência de um chip na bola, dispositivo autorizado pela Fifa desde 2012. Seria a solução para o caso da final do Campeonato Catarinense, em que o juiz não conseguiu confirmar se a cobrança de pênalti da Chapecoense cruzara totalmente a linha de gol. Sobrou para o VAR.
Mas o deslize maior, para a grande maioria que fica diante da TV, em casa, foi outro: numa tentativa de evitar acusações de uso indevido das repetições televisivas — algo polêmico no recente passado brasileiro, quando os juízes não podiam acioná-las —, a Rede Globo e suas afiliadas preferiram não mostrar durante os estaduais o replay dos lances sob análise do VAR até que o árbitro em campo se pronunciasse. Na Liga dos Campeões, tudo é mostrado. Compreende-se a boa iniciativa em nome da correção, mas ela mais atrapalhou do que ajudou.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2019, edição nº 2632
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