Publicidade
Publicidade

Carlos Bianchi e Francesco Totti: uma história de desamor em Roma

O treinador argentino, papador de taças continentais, quase foi responsável pela saída do 'Capitano' pela porta dos fundos

Carlos Bianchi é um personagem bastante familiar aos brasileiros. Em três ocasiões, esse senhor calvo, com pinta de mal-humorado, ergueu a Taça Libertadores em pleno Morumbi, calando nada menos que são – paulinos, palmeirenses e santistas. Mas o “Virrey” (vice -rei), como é conhecido em Buenos Aires, foi bem mais do que o brilhante técnico que domou egos como o do goleiro Chilavert e o do meia Riquelme e levou o Vélez Sarsfield (em 1994) e o Boca Juniors (2000, 2001 e 2003) ao topo do continente.

Publicidade

Bianchi, hoje com 70 anos, foi um artilheiro nato, ídolo de argentinos e franceses, com marcas expressivas como jogador. Bianchi nasceu na capital da Argentina, em abril de 1949, em uma família de classe média e, ironicamente, torcedora do River Plate. Já ostentando indícios de uma galopante calvície, Bianchi iniciou a carreira como jogador
no Vélez, estreando justamente contra o Boca, em 1967. Em dezoito anos de trajetória, ele se tornaria o ídolo máximo e o maior goleador do clube do bairro de Liniers, com 206 gols em duas passagens. Nesse meio tempo, também fez história no futebol francês, com cinco artilharias da liga nacional, três pelo Stade de Reims e duas pelo Paris Saint-Germain, ainda um clube pequeno em sua primeira década de vida.

Recentemente, Neymar igualou um recorde de Bianchi no PSG ao balançar as redes em oito jogos consecutivos. Nem mesmo recorrentes problemas de visão foram capazes de parar o matador argentino. “Nunca enxerguei bem, mas eu sabia aonde a bola iria, sentia o cheiro. Tinha o instinto do centroavante”, disse ele, durante visita recente ao PSG. O ex-atacante brasileiro Iarley, que ganhou de Bianchi a camisa 10 do Boca em sua bem-sucedida passagem pelo time, guarda boas lembranças do mestre. “Depois dos treinos, fazíamos desafios de finalização e ele gostava de participar. Mesmo com uma certa idade, ainda tinha um chute muito bem colocado, dava para ver que foi fera mesmo. Ele me ensinou fundamentos e a conhecer a potência do meu chute. Ele se irritava muito quando um atacante chutava por chutar.”

Publicidade

Pela seleção argentina, sua trajetória foi fugaz: em catorze jogos, fez sete gols — quatro deles, veja só, em solo brasileiro, durante a Taça Independência de 1972, chamada na Argentina de Mundialito, um torneio amistoso que reuniu vinte seleções. Bianchi jamais negou que sua maior frustração foi não ter participado de uma Copa do Mundo — foi preterido como atacante em 1974 e 1978, e negou três propostas da seleção argentina como treinador, alegando “valores morais” distintos aos da federação do presidente Julio Grondona. O fato é que, apesar de eclipsada por seu incrível e mais recente trabalho como técnico, Bianchi encerrou a carreira em 1985 como um excepcional goleador. Somou 385 gols em 546 jogos, uma média de 0,70 por partida, superior até a Ronaldo Fenômeno (0,67, com 414 tentos em 616 partidas).

Um capítulo pouco conhecido (e bem menos honroso de sua biografia) foi sua passagem desastrada como treinador pelo futebol europeu. No verão de 1996, Franco Sensi, presidente da Roma, decidiu ouvir os apelos de um primo que vivia na Argentina e investir na contratação do técnico. Bianchi partiu rumo à Itália e logo de cara não se bicou com uma jovem promessa: ninguém menos que Francesco Totti. “Ele odiava os romanos. Sobretudo eu, que era o mais jovem. Nunca tivemos uma boa relação. Dizia que eu era malandro, preguiçoso, que não fazia diferença. Eu queria ir embora”, contou o capitão, já no fim de carreira como ídolo giallorosso, a uma TV italiana.

Então com 20 anos, Totti estava de malas prontas com destino a Gênova, para jogar na Sampdoria, quando a história mudou. Bianchi pedia insistentemente a contratação do finlandês Jari Litmanen, estrela do Ajax, para o meio-campo. No entanto, um torneio triangular de pré-temporada chamado Cidade de Roma, no início de 1997, pôs Totti e Litmanen frente a frente e o craque italiano convenceu a diretoria de que Bianchi estava equivocado. Totti marcou dois gols e fez jogadas mágicas, “maradonianas”, como recorda o acervo do diário La Gazzetta dello Sport. “Totti é melhor que Litmanen. Ele nos serve e não sairá da Roma”, cravou naquela noite o presidente Sensi.

Publicidade

Apesar do sobrenome italianíssimo, jamais houve química entre Bianchi e os romanos, garante o jornalista Mimmo Ferretti, veterano na cobertura do clube pelo jornal Il Messaggero. “Era argentino de nascimento, mas tinha um ar mais francês. Era muito presunçoso, sempre de nariz em pé, se achava o melhor de todos. Ele provocava a imprensa errando, de propósito, o nome de todos os jornalistas”, conta Ferretti, que se diverte ao lembrar que chegou a levar um cartaz com seu sobrenome para que Bianchi não o chamasse de “Ferrini” ou “Ferrari”. A estada de Bianchi no Calcio terminou meses depois com uma fulminante demissão. Foi melhor para todos: enquanto Totti apaixonaria corações romanos, Bianchi empilharia taças pelo Boca Juniors. Aposentado, o argentino vive hoje com a mulher, em Paris.

Matéria publicada na edição impressa 1462 de PLACAR, de abril de 2020

Publicidade