João Saldanha seria o técnico da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo do México em 1970. Ele tinha sido contratado pouco mais de um ano antes, em 4 de fevereiro de 1969. O então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, justificou a contratação dizendo que tinha esperança de que a imprensa brasileira reclamasse menos da seleção nacional já que um jornalista era o técnico. Saldanha era um jornalista esportivo muito respeitado, apesar do currículo como técnico se restringir basicamente apenas a uma bem-sucedida experiência treinando o Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos no campeonato estadual de 1957.
Comunista orgulhoso, Saldanha desagradava profundamente a cúpula da Ditadura Militar. Em especial o general Emílio Garrastazu Médici, cuja estadia no poder coincidiu com o período mais violento da ditadura militar. Foram os anos de chumbo, marcados pela forte repressão e censura aos meios de comunicação. Pressionado por Médici a convocar o jovem craque do Atlético Mineiro Dadá Maravilha, então com 24 anos, Saldanha disse uma de suas frases de efeito mais famosas: “nem eu escalo ministério e nem o presidente escala a seleção”. Conclusão: foi demitido sumariamente! Em 17 de março de 1970, três dias antes da primeira edição da revista PLACAR chegar às bancas de jornal e três meses antes do início da Copa do Mundo do México.
A CRISE DA FERA

A primeira reportagem de PLACAR, no número 1 de 20 de março de 1970, foi sobre “a última grande crise do nosso irrequieto futebol”. Já na segunda página, a fotografia de Fernando Pimentel revela João Saldanha de costas sendo contido por pelo menos cinco homens. Apesar do tipo físico franzino, testemunhas dizem que Saldanha estava com um revólver na mão. A fotografia não mostra. O texto, de duas páginas, não é assinado. A revista chegou às bancas sem a novidade da demissão do técnico. Os tempos eram outros, não havia a agilidade que temos hoje para mandar um novo texto no WhatsApp e corrigir a paginação em tempo real no computador.
No entanto, PLACAR descrevia em detalhes as duas últimas semanas turbulentas de Saldanha à frente da seleção brasileira. O epicentro foi uma briga na concentração do Flamengo. Saldanha invadiu o local à procura do técnico Dorival Knipel, também conhecido como Iustrich. Dizem que o algoz pulou o muro para fugir da briga. Dois funcionários do clube foram agredidos e André Richer, presidente do Flamengo, ligou imediatamente para o amigo João Havelange. Teria sido a gota d´água para a demissão. No mesmo dia, à tarde, quando a cúpula da CBD tentava abafar o caso dizendo ter sido uma visita de cortesia, Saldanha tentou agredir o locutor Lazier Martins, da Rádio Guaíba de Porto Alegre. A fotografia de Saldanha brigando foi feita neste momento. “A seleção precisa de um outro Saldanha. E a transformação do técnico é a única solução”, dizia a reportagem. Ou seja, apesar das críticas, a opinião pública ainda acreditava em João Saldanha. Ele até podia ser um anti-herói, mas estava longe de ser o vilão.
“Por que vocês não discutem o técnico Saldanha em vez de discutirem o homem Saldanha?”, questionava o supervisor da CBD Adolfo Milman, o Russo. PLACAR ainda fazia coro aos dois principais dilemas de Saldanha: a necessidade de um novo goleiro para ser titular, em vez de Ado e Leão, e a confiança em Tostão como centroavante titular. “E se Tostão não puder jogar, centroavantes como Dario, Claudiomiro ou César só iriam prejudicar o esquema tático da seleção. Eles ficariam plantados na área e não dariam espaços para as entradas dos companheiros.”
JAMAIS DEIXAREI A SELEÇÃO

A reportagem vinha seguida de uma entrevista exclusiva com João Saldanha, cuja frase de efeito da vez foi “o caneco é nosso”. Com dezenas de processos criminais no currículo, Saldanha fazia jus ao apelido João Sem-Medo, concedido por ninguém menos do que Nelson Rodrigues. Tão corajoso quanto, o experiente repórter Teixeira Heizer propôs fazer vinte perguntas cara a cara. Saldanha topou! A entrevista deveria ser lida, debatida e estudada em todas as faculdades de jornalismo do Brasil. Primeira pergunta: “você perdeu a fé em Tostão?” Assim, de bate pronto, com coragem. Sem pudor. “Tostão não é problema”, devolve o entrevistado. Ao passo que o entrevistador percebe a sutileza. “Você acha que o zagueiro brasileiro tem dificuldades para jogar como líbero”? Saldanha comete um sincericídio: “Se usássemos o líbero atrás da defesa, os quatro zagueiros teriam que fazer marcação homem a homem. Isso eles não sabem fazer”.
Fiel aos princípios comunistas, Saldanha acreditava que o futuro e o sucesso da seleção dependiam obrigatoriamente de uma mudança de atitude e não apenas de uma mudança tática. Era preciso ser menos individualista e jogar mais pelo coletivo. “A mentalidade que eu quero está indo muito bem: conjunto, cooperação, camaradagem, respeito e vontade de vencer”.
Tostão, na coluna dele para a Folha de São Paulo, chancela essa visão de Saldanha: “a seleção brasileira de 70 encantou o mundo porque tinha muitos craques, era muito coletiva, organizada, equilibrada, com um trio no meio-campo e outro no ataque. Era uma equipe revolucionária para a época, pois marcava e atacava com muitos jogadores. Porém, o que mais se diz e se repete é que era uma seleção extremamente ousada, ofensiva, que tinha cinco meias-atacantes (camisas 10) e que os jogadores tinham liberdade para fazer em campo o que queriam”.
JOÃO CONTA TUDO
No mesmo dia 20 de março em que a primeira edição de PLACAR chegou às bancas, desembarcava em São Paulo João Saldanha. Foram apenas três dias desempregado. Demitido pela CBD, Saldanha era o mais novo contratado da revista PLACAR para escrever a versão dele da crise. A ideia era ter o ex-técnico da seleção como colunista durante a Copa do México. A operação sigilosa para contratá-lo envolveu diretamente o primeiro repórter de PLACAR José Maria de Aquino, protagonista do filme “Parem as máquinas!”, disponível no YouTube.

José Maria de Aquino nos bastidores de “Parem as máquinas! – fotografia de Alexandre Battibugli/PLACAR
Quando João Saldanha convocou uma coletiva de imprensa na sede da CBD, ainda na Rua da Alfândega, 28, no centro do Rio, para comunicar que estava deixando o comando da seleção, Woile Guimarães, diretor de redação da revista PLACAR se preparava para levar o primeiro número às bancas. “Woile era atirado, maluco, um cara fantástico. Ele me chamou, disse que não teria tempo e pediu que eu fosse ao Rio com a missão de contratar Saldanha”. Woile queria que Saldanha fizesse um artigo para contar sua passagem pela seleção e a recém-saída turbulenta.
“Embora não fôssemos amigos, Saldanha me conhecia e me tratava bem. Michel Laurence, que fazia dupla comigo no JT e depois na PLACAR, não podia ser escalado para a missão. Eram desafetos. Peguei o vôo, fui direto para a sede da CBD e acomodei-me num canto da sala. Ouvi todas as longas perguntas e respostas em silêncio. Quando vi que a coletiva se desarrumava e as pessoas começaram a sair, desci pelo elevador”. Aquino esperou Saldanha na porta do lobby. Não havia ninguém lá além dos dois. “Me apresentei, perguntei se lembrava de mim e disse qual era minha missão. Ele respondeu: ´Olha, Aquino, vou ser sincero. Não tenho nada de novo para escrever para sua revista. Falei tudo na coletiva e vou daqui para o jornal escrever minha primeira coluna. Assinei com O Globo´. Combinei da gente conversar no dia seguinte, trocamos telefones e imediatamente liguei para Woile. No dia seguinte, pela manhã, fui até o apartamento de Saldanha em Ipanema (ou Leblon?). Ele pediu 30 mil cruzeiros novos, moeda da época, que correspondia a 10 salários pagos aos repórteres e editores da revista. Era um bom salário”.
Saldanha dizia que indicou ao presidente da Comissão Técnica da CBD, Antonio do Passo, a contratação de Dino Sani ou Zagallo. A CBD chegou a convidar Sani mas ele, que era olheiro do São Paulo, afirmou que não convocaria Dadá Maravilha a pedido de Médici. Zagallo, que conhecia a maior parte dos jogadores da seleção pois trabalharam juntos no Botafogo, topou convocar Dadá. E aproveitou para levar novos nomes, entre eles Rivelino, do Corinthians, e o goleiro Félix, do Fluminense, que acabaram sendo titulares durante toda a competição. Dadá não chegou nem a sentar no banco de reservas.
A coluna de Saldanha foi publicada na edição 2 de PLACAR, que chegou nas bancas no dia 27 de março de 1970, com o selo de exclusivo e o título “A história secreta da seleção”. A carta aberta publicada por Saldanha foi dissecada por Luiz Felipe Castro, redator-chefe de PLACAR, aqui. As cinco páginas, com quatro colunas cada, só traziam palavras. Nada de fotografias, a não ser a de página cheia que recebia o título. Saldanha de camiseta polo branca, gomex no cabelo, calça de linho azul sem cinto e um reluzente sapato branco, cujo pé direito escondia-se detrás de uma bola igualmente branca porém suja de lama. É o mesmo visual adotado pelo ator Rodrigo Santoro, que interpreta Saldanha, na série “Brasil 70: a saga do Tri”, a mais assistida do momento na Netflix. Como bem notou Luiz Felipe, muitos trechos da carta inspiraram diálogos e cenas da série da Netflix.
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A carta aberta de Saldanha foi escrita durante três dias numa máquina Olivetti, parecida com uma que José Maria de Aquino também usava para escrever as reportagens dele. As sujeiras, manobras políticas e as mentiras da seleção brasileira foram passadas a limpo no interior de um apartamento em São Paulo, longe dos holofotes da imprensa e do agito da redação da revista.

José Maria de Aquino e a Olivetti em cena de “Parem as máquinas! – fotografia de Carol Quintanilha
No melhor espírito coletivo de Saldanha, com mentalidade de conjunto, cooperação e camaradagem, a reportagem que abre a edição 2 de PLACAR foi assinada por TODOS os cinco repórteres da revista e nove fotógrafos.
[página 2, Nº 2 [27-3-1970]
BEIJO DE JUDAS
[página 38, Nº 2 [27-3-1970]
Na sessão Camisa 12, tradicional espaço para as cartas dos leitores de PLACAR, o leitor Adalberto Pessanha, do Rio de Janeiro, traçou um paralelo entre o antípoda de Jesus Cristo e Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, popularmente conhecido como João Havelange. “Judas não pode fugir ao seu destino, mas depois de trair Jesus com um beijo revoltou-se com sua sorte e matou-se. Havelange se repete a cada passo. Deu todo apoio a Aimoré e tempos depois o substituía por Saldanha. Não se suicidou. Depois dos mais rasgados elogios a Saldanha, agora o demite. E assim Havelange arrasta o futebol brasileiro para a cruz da desmoralização, tal como aconteceu em Londres. Eu só tenho medo é que Havelange se impressione com a história de Judas e siga seu exemplo”.

João Havelange, João Saldanha e Antônio do Passo – Carlos Namba/PLACAR
Havelange não suicidou-se. Pelo contrário. Viveu mais do que a média do brasileiro comum. Morreu aos 100 anos, em 2016, de complicações respiratórias decorrentes de uma pneumonia. O aparelho respiratório também vitimou João Saldanha, que não resistiu a um enfisema pulmonar causado pelo vício de fumar cigarro. Se tivesse escrito seu próprio obituário, Saldanha poderia ter pensado numa frase de efeito. “Morri de futebol!” Era 12 de julho de 1990 e ele estava em Roma, na Itália, para comentar a Copa do Mundo para a extinta TV Manchete. Pelo menos Saldanha conseguiu ver o título da Alemanha em cima da Argentina, quatro dias antes do óbito. “Se eu tiver que morrer, vou morrer aqui, lá, em qualquer lugar. Um dia, vamos todos morrer, não é? Então, se for esta a hora, eu prefiro morrer fazendo o que eu gosto”, disse Saldanha pouco antes de embarcar para a Copa da Itália. (https://ge.globo.com/futebol/noticia/ha-100-anos-nascia-o-visceral-e-icone-joao-saldanha-o-joao-sem-medo.ghtml)

João Saldanha, cronista esportivo. – Rodolpho Machado
FAZ DE CONTA
Depois de contratá-lo para PLACAR em 1970, José Maria de Aquino encontrou João Saldanha outras três vezes. A última foi em 1980, no interior da Espanha, em Cádis, onde o Flamengo disputava o Troféu Ramón de Carranza. Na final contra o Betis, Zico marcou dois gols e garantiu o título da equipe carioca. A fotografia de Aquino com a máquina de escrever foi tirada no mesmo dia em que Saldanha o levou para assistir uma tourada. “Ele me ensinou a ver o que acontecia e o papel de cada personagem”.

Aquino e sua máquina Olivetti nos anos 1970 – Arquivo Pessoal
Em 1973, Aquino e Saldanha estiveram juntos no Estádio Olímpico de Berlim. O Brasil derrotou a Alemanha por 1 a 0, gol de Dirceu aos 29 minutos do segundo tempo daquele amistoso em 16 de junho. Mas o encontro que ainda está fresco na memória de Aquino foi o mais inusitado de todos. O repórter acertou com o ex-treinador da seleção uma palestra para os melhores jornaleiros da Editora Abril na pacata cidade de Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, no final da década de 1970. Aquino ainda acompanhou Saldanha. “Peguei ele em Congonhas, fui até o hotel do SENAC e depois voltei com Saldanha até o aeroporto”. Foi Jairo Regis, diretor de PLACAR entre 1971 e 1979, quem decidiu contratar Saldanha para o evento. Aquino conta que Clodoaldo e Serginho Chulapa também participaram do encontro com Saldanha e os jornaleiros. Os dois estavam em alta naquele momento jogando pelo Santos e foi preciso muito dinheiro para convencê-los a ir. “Não era legal convidar os jogadores para um evento como aquele e não fazer um agrado”.
Na viagem de volta, Jairo Regis quis percorrer os quase 200 quilômetros que separam Águas de São Pedro junto com os dois. Jairo era fã de Saldanha, seja como jornalista e como um apaixonado pela esquerda. Os dois estavam no mesmo espectro político e futebolístico. Concordavam em quase tudo e discordavam de poucas coisas. Foram duas horas de viagem em um fusca branco sem rádio. Estupefato com interlocutor, Jairo começa a conversa dizendo na lata: “João, você é o mentiroso mais maravilhoso que conheço”. Mentiroso no sentido de contador de causos, não cascateiro. Saldanha não o conhecia e odiava de ser chamado de mentiroso. O clima não azedou. Saldanha descobriu que Jairo era nascido em Curitiba, cidade onde tinha morado por uns tempos. Citou diversos lugares que frequentava na cidade e perguntava se Jairo conhecia esses locais. Para surpresa de ambos, Saldanha e Jairo frequentavam praticamente os mesmos lugares. Compartilhavam até o mesmo alfaiate, mas nunca haviam se encontrado na vida até então. “Tá vendo, Saldanha era maravilhoso, não mentiroso”, comenta Aquino.
João Saldanha sempre foi um personagem único. Carismático, hiperbólico, tinha o poder de fazer tudo parecer verdade. Desde causos imaginários, até as célebres frases de efeito. O jeito contador de histórias era o que atraía as pessoas. Principalmente porque ele usava o futebol para refletir sobre questões da vida. “Campo de futebol não é loteamento. Ninguém é dono de lote, de posição fixa”. Pois é, ninguém é insubstituível na vida. Todos nós vamos perder nosso espaço em algum momento. Menos João Saldanha! Talvez por isso, a assinatura dele nas colunas de PLACAR tenha sido, literalmente, uma assinatura.

* Piero Sbragia é jornalista, documentarista, doutorando em Artes na UFMG e gerente de produção e projetos incentivados na revista PLACAR. Dirigiu e escreveu “Parem as máquinas!” (2026), primeiro filme produzido pela PLACAR em 56 anos. Escreveu “Na Ilha: Conversas sobre Montagem Cinematográfica” (2022) e “Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade” (2020). Foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2022.






