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ESPECIAL
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A verdadeira febre de bola

Um jogão da Champions League, um folclórico clássico local e uma final de campeonato. Cinco dias em Londres são suficientes pra provar que não há nada mais atual que chamar o futebol de esporte bretão

A gente sempre escuta que o Brasil é o país do futebol, mas é só desembarcar na Inglaterra em qualquer dia besta para começar, ainda no aeroporto, a delirar com a verdadeira “febre de bola”. Aliás, nem precisa desembarcar no Reino Unido para perceber que país leva a sério o lema “Football is life”. O avião que me levava a Londres em fevereiro tinha em sua programação de vídeos um especial sobre grandes rivalidades no futebol. Em destaque, o ódio entre torcedores do Arsenal e do Tottenham Hotspurs, os inimigos do norte da capital inglesa. Na sempre austera alfândega inglesa, uma certa proximidade com o Kaká (morar na mesma cidade que ele já nos fez próximos) ajuda a quebrar o gelo com a indiana que poderia me mandar de volta, nessa moda da deportação de brasileiros. – O que você veio fazer no país? – Entre outras coisas, assistir a Arsenal x Milan. – Espero que você venha trazer sorte ao Milan. Odeio o Arsenal. E o visto foi carimbado com raiva. Nem perguntei qual era o time dela. Meu ritual de chegada a um país estrangeiro inclui uma passada na banca de jornais e revistas do aeroporto. Saí de lá com umas seis revistas de futebol, deixando várias para trás. Fora os inúmeros jornais com Adebayor e Kaká ou Pato na capa. Cheguei a Londres no dia do colossal encontro de Arsenal e Milan no Emirates Stadium, pela Liga dos Campeões – talvez o jogo mais grandioso do ano. O metrô para o norte de Londres estava divertido. De estação em estação, entrava uma horda cantante de italianos. Fiquei espantado com a quantidade de músicas sobre Pato. Sobre Kaká, nem preciso falar. Parecia que eu estava em Milão, e me perguntava pela torcida do time da casa. Foi só chegar à Estação Arsenal para deparar com 60 000 deles. Na Inglaterra não tem correria. Os ingressos se esgotam semanas, às vezes meses antes, o acesso ao campo é fácil, os lugares são marcados. A torcida local chega em cima da hora. Fui ao Emirates como jornalista. Meu passe de imprensa dava acesso a uma sala enorme, quase do tamanho de um campo, com TVs, sofás, bancadas para computador, área para jantar (escolha de três pratos) e acesso direto às cadeiras pertinho do gramado.

O jogo terminou 0 x 0 com uma bola no travessão do Milan nos descontos, dando sinais claros do que aconteceria no jogo da volta: o avanço inglês. Em cinco dias de Londres dava para ver jogos de quatro campeonatos. Tinha partidas da Champions League, da Premier League, da Coca Cola Championship e, no Wembley, a final da Carling Cup. No sábado, fui atrás de ingressos para o “clássico” londrino Fulham x West Ham, da primeira divisão local. Seria o equivalente inglês para nosso Portuguesa x Juventus – isso se nossos destemidos esquadrões paulistanos conseguissem esgotar mais de 25 000 ingressos dias antes de seu encontro. Comprei o ingresso de um cambista pelo dobro do preço. O Craven Cottage é acanhado para os padrões londrinos e meu lugar era colado a uma parede. Mas não era ruim. O serviço de som do estádio me chamou a atenção para algo que não tinha reparado no Emirates. Anunciava que era proibido fumar em qualquer lugar nas dependências do estádio. Fiquei imaginando os torcedores de um Palmeiras x Corinthians impedidos de fumar no Morumbi. Nem nos banheiros. Eu estava neutro, tudo bem se desse empate. Até que, no meio do segundo tempo, descobri uma escrita desse dérbi. O Fulham não ganhava do West Ham pela Premier League em casa fazia...41 anos. Desde 1966. Aí passei a torcer para que o jogo tivesse um vencedor.

Se Arsenal x Milan foi um jogão estelar, Fulham x West Ham foi um dos piores que já vi na vida. Mas um dos mais divertidos. Para começar, teve gol. Um gol. A três minutos do final. E o artilheiro do jogo foi um peruano (Solano), que cometeu duas infrações no mesmo lance. Entrou fazendo falta no goleiro e fez o gol de braço. Fulham 0 x 1 West Ham.

HORA DO PLANO B
No dia seguinte a coisa era (mais) séria. Final da Carling Cup no lendário Wembley, entre outros dois times de Londres: Chelsea e Tottenham Hotspurs. Para a final em Wembley eu não tinha ingresso – eles já haviam esgotado semanas antes. Cheguei cedinho para ver a festa das torcidas no famoso corredor para Wembley, a passarela que vai do metrô ao estádio. Fui determinado a comprar a entrada dos famosos cambistas do futebol inglês, se estes não estivessem vendendo por 1 400 reais um ingresso que valia 120, aproximadamente. Sem choro, sem baratear na hora da bola rolando. Comprei uma camiseta do Chelsea comemorativa para o jogo e fui para o segundo estádio dos ingleses loucos por futebol: o pub. Esse tem em todo lugar e a entrada é liberada. A relação dos pubs com o futebol na Inglaterra é coisa muito séria. Difícil achar um pub em solo britânico que não tenha grandes TVs de plasma com assinatura da Sky Sports. Cartazes na porta de vários deles indicam a programação futebolística da semana. No que entrei, no coração de Londres, a torcida era em peso pró-Tottenham Hotspurs. E o lugar era mesmo um quaseestádio. Lá se canta, grita, chora, xinga o juiz, sai para buscar bebida, a cerveja voa na hora da raiva e, quando sai o gol, o “Yeeeeeeeeeeeeees!” apoteótico vem seguido de abraços histéricos, chuva de bebidas, confusão. Nem estava tão envolvido com nenhum dos times, mas por causa do segundo gol do Tottenham (foi 2 x 1 para os Spurs) até em outra mesa eu fui parar. Saí do pub encharcado de cerveja e com um cachecol também molhado do “Blue Army” amarrado no pescoço, em direção ao frio de 3 °C que gelava a Londres azul do Tottenham campeão. Não preciso dizer que fiquei trancado no hotel naquela noite, com gripe. (Mal) dormi delirando sob a verdadeira febre de bola.

OS PALCOS

ARSENAL 0 X 0 MILAN
“Parecia que eu estava em Milão, e me perguntava pela torcida do time da casa. Foi só chegar à Estação Arsenal para deparar com 60 000 Dele”.


Liga dos Campeões – 20/2/2008
Emirates Estadium, Londres

FULHAM 0 X 1 WEST HAM
“Foi um dos piores jogos que já vi na vida. Mas um dos mais divertidos. Para começar teve gol. Um gol. A três minutos do final”.


Campeonato Inglês – 23/2/2008
Craven Cottage, Londres

TOTTENHAM 2 X 1 CHELSEA
“Fui determinado a comprar a entrada dos famososo cambistas do futebol inglês, se estes não estivessem vendendo por 1400 reais um ingresso que valia 120”.


Copa da Liga – 24/2/2008
Wembley, Londres