NAS BANCAS

Bergamota mecânica

Como surge um projeto tático? No Inter versão 2008, a formatação da equipe surgiu como uma espécie de plano B. O futebol de alta rotatividade, de sincronismo nas jogadas da defesa ao ataque, não nasceu de parto natural: acabou acontecendo. A idéia era ter uma carta na manga caso a fragilidade física de Nilmar deixasse o time na mão. O que ocorreu ainda em janeiro, quando o atacante sofreu uma lesão muscular, da qual ainda se recupera. Em seu lugar entrou o veterano Iarley, a peça que faltava na engrenagem do novo brinquedo de Abel Braga. E foi assim que o Inter deslanchou, quando nasceu a “Bergamota Mecânica” (bergamota é o termo gaúcho para tangerina).

Com Iarley na equipe, o Inter passou a ter dois atacantes (ele e Fernandão) que recuam até o meio-campo, arrastam zagueiros e volantes para longe da área e deixam um rombo nos flancos adversários. A “divisão Panzer” colorada avança com Wellington Monteiro, Alex, Magrão, Guiñazu, Marcão e até Índio, em alta velocidade sobre desprotegidas defesas. Um dos principais elementos que movem a Bergamota Mecânica é a capacidade de seus jogadores de executarem múltiplas funções. Na defesa, Índio é zagueiro e ala-direito; o colombiano Orozco, líbero e volante; Marcão, zagueiro e ala pela esquerda. No meio-campo, Wellington Monteiro trabalha como ala-direito, volante e até zagueiro; Edinho é volante e zagueiro; Magrão, volante, meia e atacante. Alex joga como meia, atacante e até volante. Guiñazu só não atuou como goleiro. Fernandão e Iarley são meias e atacantes.

RÓTULO REJEITADO

A primeira demonstração de força da Bergamota Mecânica talvez tenha sido na goleada por 3 x 0 sobre o São Luiz. Ao fim da partida, Abel Braga recebeu um telefonema de Fernando Carvalho, que elogiava o jogo coletivo da equipe – disse não se tratar de qualquer carrossel, mas de um “carrossel com grife”. O elogio foi bem recebido, mas, uma vez tornado público, foi rechaçado pelo treinador. “Quando eu era criança, perto da casa da minha mãe, tinha um parque de diversões e eu andava muito de carrossel. Só que agora eu dirijo um time de futebol, não tem nada a ver com carrossel. Isso fica bem para vocês da imprensa, que inventam esses termos”, disse Abel.

SUCO DE BERGAMOTA

O pesadelo do Inter em 2008 atende pelo nome de Juventude. O técnico Edson Gaúcho (que curiosamente foi demitido do clube) foi o único a emperrar a máquina colorada. Na primeira vitória, por 1 x 0, no Beira-Rio, pode-se alegar azar ou desleixo da turma de Abel Braga. Mas quando o Juventude goleou o Inter por 3 x 0, em Caxias do Sul, estava concretizada a fórmula para transformar em suco a Bergamota Mecânica. Edson Gaúcho não gosta de falar como derrubou o Inter, mas dá algumas pistas: “O Guiñazu é o nome do Inter. Tudo passa por ele; é quem deve ser marcado de cima. Jogamos diferente contra o Inter, com uma forte marcação sob pressão na zaga deles”, diz. De fato, naquela noite, Guiñazu não conseguiu fazer a transição da defesa para o meio-campo, sempre vigiado por dois ou três adversários.

A verdade é que, por enquanto, a Bergamota Mecânica ainda é uma esperança. Precisa provar que pode ser uma máquina de jogar bola. E espera um final mais feliz que o da Laranja Mecânica holandesa de 1974...

COMO O INTER JOGA

A BERGAMOTA MECÂNICA AVANÇA...
No ataque, oito jogadores se
envolvem nas tabelas

...E DOMINA O CAMPO DO ADVERSÁRIO
Gols e assistências saem
até dos pés dos zagueiros

É MATAR OU MORRER
Implacável no ataque, o carrossel do
Inter pode pagar o preço na defesa